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Insper e Pacto Global da ONU firmam parceria para promover sistemas alimentares sustentáveis

30/10/26

Baixo Carbono | Meio Ambiente

Insper e Pacto Global da ONU firmam parceria para promover sistemas alimentares sustentáveis

Cooperação envolve Insper Agro Global e Insper Metricis nos Diálogos Entre Solos e prevê contribuição técnica para documento de princípios empresariais

O Insper e o Instituto Rede Brasil do Pacto Global, que representa o Pacto Global da ONU no Brasil, formalizaram uma parceria com o objetivo de contribuir para a transformação sustentável dos sistemas alimentares. Conduzida no Insper pelo Insper Agro Global e pelo Insper Metricis, a cooperação prevê a troca de conhecimento e o apoio científico e técnico à identificação de melhores práticas empresariais na agricultura.

Lançado em 2000 pelas Nações Unidas, o Pacto Global é uma iniciativa voluntária que mobiliza empresas a alinhar suas estratégias e operações a dez princípios nas áreas de direitos humanos, trabalho, meio ambiente e combate à corrupção. As organizações participantes também assumem o compromisso de contribuir para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

A parceria ocorre no âmbito da Plataforma de Ação pela Agricultura e Florestas e do programa Entre Solos: Semeando Conexões, do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, com destaque para os Diálogos Entre Solos. Os encontros reúnem empresas, pesquisadores, representantes do poder público e da sociedade civil para discutir desafios da agricultura e construir caminhos para sistemas alimentares mais sustentáveis, resilientes e inclusivos.

Entre as frentes de trabalho está a elaboração do documento “Princípios Empresariais para a Transformação dos Sistemas Alimentares”, desenvolvido pelo Pacto Global com contribuição técnica do Insper. A proposta é oferecer orientações para que empresas incorporem objetivos ambientais, sociais e de governança a suas estratégias, operações e cadeias de valor.

Os princípios são construídos com base nas contribuições dos Diálogos Entre Solos. Em 2026, foram realizados dois encontros da iniciativa, nos dias 20 de maio e 20 de outubro. No mais recente, a coordenadora executiva do Insper Metricis, Fernanda Lemos, e a professora e pesquisadora Gabriela Mota da Cruz, do Insper Agro Global, abordaram as condições necessárias para transformar os sistemas alimentares, com foco em governança, transparência e rastreabilidade das cadeias produtivas.

O memorando de entendimento entre as instituições também prevê a participação de pesquisadores do Insper em atividades da plataforma e a contribuição técnica para o desenvolvimento de metodologias, recomendações e estratégias voltadas às melhores práticas empresariais. A cooperação busca apoiar o avanço dos ODS e a disseminação dos princípios do Pacto Global.

 

Caminhos para a ação empresarial

Criados em 2021, os Diálogos Entre Solos promovem a aproximação de diferentes setores em torno dos desafios da sustentabilidade na produção de alimentos e na agricultura. Em 2025, no contexto da COP30, a iniciativa consolidou recomendações estratégicas para a transformação dos sistemas alimentares, destacando o papel da agricultura tropical na construção de soluções sustentáveis.

Em 2026, o trabalho avançou para a identificação de práticas empresariais que possam contribuir para colocar essas recomendações em ação. O primeiro encontro do ano, em maio, discutiu como aproximar ambição e implementação, considerando os desafios para alinhar produtividade e sustentabilidade no agronegócio brasileiro.

Na ocasião, Fernanda e Gabriela apresentaram questões relacionadas à recuperação de pastagens degradadas, à conversão legal de vegetação nativa em propriedades privadas e à necessidade de coordenação entre os atores das cadeias produtivas. A apresentação também apontou obstáculos, como a falta de indicadores adequados e a escassez de recursos financeiros e humanos para implementar instrumentos como o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e monitorar o desmatamento.

O diálogo buscou identificar quais diretrizes já orientam as empresas, quais temas ainda precisam ser incorporados às estratégias corporativas e o que deve evoluir para que práticas sustentáveis possam ganhar escala. Essas questões ajudaram a orientar a construção do documento de princípios empresariais.

No segundo encontro, em outubro, o debate se concentrou nos quatro eixos propostos para o documento: descarbonização e transição justa; gestão de recursos naturais e resiliência dos ecossistemas; integridade, monitoramento e rastreabilidade da cadeia de valor; e trabalho decente e saúde da pessoa trabalhadora. A programação incluiu a avaliação dos princípios, das ações e dos indicadores propostos. As contribuições devem subsidiar o aprimoramento do documento.

 

Governança e rastreabilidade

Na apresentação sobre governança, Fernanda Lemos destacou que, apesar do aumento dos compromissos corporativos, os resultados sistêmicos avançam devagar. Segundo a perspectiva apresentada, ações fragmentadas têm alcance limitado, pois as cadeias já possuem estruturas de governança estabelecidas. Para promover a sustentabilidade, é preciso rever essas estruturas.

A apresentação retomou princípios de governança discutidos no primeiro encontro, como a definição de métricas compartilhadas, a consideração das características de cada território, a divisão de custos e benefícios e a clareza sobre os papéis dos envolvidos.

Como aplicação, foi apresentada uma proposta de colaboração intersetorial por resultados para a pecuária de corte, objeto de pesquisa em 2025 e 2026. O modelo envolve órgãos públicos, fundos de financiamento, prestadores de serviços e um núcleo técnico responsável pela mensuração dos resultados. Entre as formas de participação das empresas estão o cofinanciamento, o compartilhamento de dados, a participação em comitês e o alinhamento de protocolos.

Gabriela Mota da Cruz tratou da rastreabilidade como instrumento para identificar a origem das matérias-primas, verificar riscos e valorizar práticas sustentáveis. A apresentação destacou que as exigências dos mercados variam e podem demandar informações em diferentes níveis, desde a origem de um lote até o histórico dos animais e as propriedades por onde passaram.

Na pecuária, por exemplo, a cria, a recria e a engorda podem ocorrer em propriedades distintas, o que amplia a dificuldade de acompanhar todos os elos da cadeia. A identificação de fornecedores indiretos, a integração de bases de dados e a definição de critérios comuns são alguns dos desafios apontados. Também é necessário considerar os custos de adaptação e oferecer apoio aos produtores, especialmente aos menores.

A apresentação reuniu experiências das cadeias de algodão, soja e carne bovina analisadas pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS). A conclusão é que o avanço da rastreabilidade depende de tecnologia, infraestrutura pública e regras pactuadas entre os participantes.

 

Princípios para orientar a ação empresarial

A versão em discussão dos Princípios Empresariais para a Transformação dos Sistemas Alimentares procura traduzir cada um dos quatro eixos em ações, orientações de implementação e indicadores de acompanhamento. A aplicação das medidas deve considerar as características das operações e cadeias de valor de cada empresa, assim como os riscos e impactos associados a suas atividades.

No eixo de descarbonização e transição justa, a proposta inclui a elaboração de inventários de emissões e o estabelecimento de metas de redução baseadas na ciência. Também prevê que as empresas avaliem como as mudanças climáticas e as medidas de descarbonização afetam os participantes de suas cadeias e apoiem seu acesso a capacitação, assistência técnica, financiamento e mercados.

Em relação aos recursos naturais, o documento propõe que as empresas identifiquem suas dependências e seus impactos sobre a natureza, ampliem a adoção de práticas regenerativas e contribuam para a restauração de ecossistemas e a recuperação de áreas produtivas degradadas.

O eixo dedicado à integridade e à rastreabilidade propõe o mapeamento de fornecedores diretos e indiretos, a identificação da origem das matérias-primas, a verificação das condições de produção e a incorporação de critérios de desmatamento e conversão zero às decisões de aquisição.

O quarto eixo trata dos direitos humanos e trabalhistas, da saúde e do bem-estar das pessoas trabalhadoras. Entre as ações sugeridas estão a prevenção do trabalho infantil e forçado, da discriminação e de práticas abusivas, bem como a avaliação de impactos sobre direitos humanos nas operações e relações comerciais.

Com a elaboração dos princípios, os parceiros buscam transformar as recomendações discutidas nos Diálogos Entre Solos em orientações que apoiem o setor privado na implementação de soluções para os sistemas alimentares.