Crime organizado avança sobre o agronegócio brasileiro e amplia riscos
11/03/26 - Marcos Jank | Alberto Pfeifer
O agronegócio brasileiro, responsável por 23% do PIB nacional — o equivalente a R$ 3,8 trilhões em 2025 —, enfrenta uma ameaça que vai além das intempéries climáticas e das oscilações de mercado: a infiltração estruturada do crime organizado transnacional. Para discutir esse cenário, o Insper Agro Global reuniu, na noite de 11 de março, promotores, pesquisadores e representantes do setor privado no evento Ilícitos no Agro Brasileiro, ocasião em que foi apresentado estudo preliminar sobre o fenômeno. A abertura do evento foi conduzida por Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global, e a apresentação de resultados preliminares do estudo coube a Alberto Pfeifer, policy fellow da instituição.
Um dos pontos centrais do estudo é a mudança de paradigma identificada a partir de 2015. Até então, o crime no campo tinha caráter predominantemente local, marcado por conflitos fundiários isolados, roubos oportunistas e pela atuação de pequenas quadrilhas independentes. Desde então, porém, o meio rural passou a assumir papel estratégico para o crime organizado, convertendo-se em um hub logístico integrado às rotas internacionais do tráfico de drogas.
Segundo o levantamento, o PCC opera com lógica mais empresarial: contamina carregamentos de grãos e carne com cocaína nas chamadas operações rip-on/rip-off, investe em frotas de caminhões bitrens e em pistas de pouso em fazendas de fachada, além de manter conexões em países vizinhos, como Paraguai e Bolívia. Já o Comando Vermelho privilegia o domínio territorial na Amazônia Legal, financiando-se por atividades como garimpo ilegal e extração de madeira, além de manter conexões com redes criminosas transnacionais na região.
O estudo mapeia a incidência de ilícitos em diferentes etapas da cadeia produtiva e indica que o problema se distribui por múltiplos elos. Segundo o levantamento, 176 milhões de hectares de propriedades privadas se sobrepõem a áreas públicas em razão de registros fraudulentos no Cadastro Ambiental Rural (CAR). Em 2024, incêndios criminosos atingiram 59 mil hectares de canaviais em São Paulo, com prejuízos estimados em R$ 350 milhões no estado e em R$ 1 bilhão no país. O mercado ilegal de defensivos movimentaria cerca de R$ 20 bilhões por ano, enquanto sementes piratas gerariam perdas anuais de R$ 10 bilhões, com 11% da área nacional de soja cultivada com variedades ilegais. Os roubos de maquinário cresceram 37,5% no primeiro semestre de 2025, e o roubo de cargas gerou prejuízos superiores a R$ 1,2 bilhão em 2023. Na logística, a chamada “rota caipira” aparece como um dos vetores relevantes do tráfico.
Com alta circulação de capital em espécie e cadeias produtivas complexas, o agronegócio também oferece condições favoráveis à ocultação de ativos ilícitos. O chamado “gado de papel” — a simulação de rebanhos inexistentes para justificar receitas — figura entre os métodos mais recorrentes. A aquisição de maquinário de alto valor pode funcionar como mecanismo de conversão de recursos ilícitos em ativos físicos. Os resultados preliminares do estudo apontam ainda o uso de postos de combustíveis, distribuidoras, usinas e fintechs de fachada em esquemas de lavagem e fraude, incluindo tokenização fraudulenta de grãos. No setor de combustíveis, as fraudes e esquemas de lavagem mapeados pelo material apresentado movimentaram dezenas de bilhões de reais entre 2020 e 2024.
Os limites da persecução penal
Esses desafios foram debatidos em painel mediado por Marcelo Godoy, repórter especial do Estadão especializado em segurança pública, com a participação de Adriano Mellega, promotor do Gaeco especializado no combate a organizações criminosas ligadas à falsificação e ao contrabando de agrotóxicos; Nilto Mendes, gerente do Comitê de Combate a Produtos Ilegais da CropLife Brasil e ex-integrante da Polícia Federal; e Leandro Piquet Carneiro, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP e coordenador da Escola de Segurança Multidimensional.
O estudo identifica três gargalos críticos na aplicação da Lei das Organizações Criminosas (Lei 12.850/13) no ambiente rural. O primeiro é a dificuldade de comprovar a estabilidade das células criminosas, cujos integrantes prestam serviços esporádicos a diferentes grupos. O segundo é a impossibilidade prática de realizar perícias in loco em áreas dominadas pelo crime, o que pode gerar nulidades processuais. O terceiro é a baixa eficácia da colaboração premiada em regiões remotas, onde o poder coercitivo das facções silencia testemunhas.
Como resposta, o estudo propõe uma abordagem em três níveis. No plano estratégico, recomenda a criação de uma Política Nacional de Segurança Rural articulada entre ministérios e com cooperação internacional nas fronteiras secas. No plano tático, sugere foco em inteligência financeira e na criação de esquadrões rurais itinerantes com agentes externos. No plano operacional, defende o monitoramento por satélites e drones integrados à Polícia Federal, além da adoção de mecanismos de rastreabilidade via blockchain pelo setor privado. A conclusão do material é que o fenômeno não deve ser tratado como um problema setorial isolado, mas como um desafio sistêmico, que exige resposta igualmente coordenada.
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