Qual é a o impacto comercial do acordo Mercosul-União Europeia?
13/01/26 - Leandro Gilio | Cinthia Cabral da Costa
Comercio Internacional | Macroeconomia
Imagem gerada por inteligência artificial
Estudo realizado por pesquisadores do Insper Agro Global indica ganhos em comércio limitados por barreiras que ainda permanecem
Após um longo ciclo de negociações que se estendeu desde 1999 até 2024, o aguardado acordo entre Mercosul e União Europeia (UE) deve finalmente ser assinado em 17 de janeiro de 2026. Apontado como um marco histórico nas relações econômicas entre as duas regiões, o pacto engloba desde compromissos de cooperação até medidas específicas no comércio, como a redução de tarifas e o estabelecimento de maiores cotas para exportações e importações.
Combinando mercados que juntos concentram aproximadamente 720 milhões de consumidores e representam cerca de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) global, uma redução de barreiras ao comércio poderia gerar grandes ganhos aos países membros dos blocos. Contudo, uma análise detalhada do tratado negociado revela que, apesar do potencial, ele terá impacto comercial limitado devido à permanência de barreiras protecionistas muito significativas.
Segundo um estudo conduzido por pesquisadores do Insper Agro Global, mesmo com as reduções tarifárias e o aumento nas cotas preferenciais, a União Europeia continuará aplicando regras rigorosas à importação de produtos agrícolas oriundos do Mercosul, particularmente do Brasil. No lado do Mercosul também há barreiras, especialmente em produtos industriais.
O setor de carne bovina exemplifica bem essa dinâmica: embora o acordo preveja uma ampliação nas cotas preferenciais para o Mercosul, o volume adicional intra-cota equivalerá a apenas 1,5% do mercado europeu. Além disso, as tarifas aplicáveis fora dessas cotas permanecem altas, inibindo qualquer grande expansão das exportações brasileiras para o bloco.
Em termos gerais, no estudo estima-se impacto estimado um aumento anual das importações europeias com origem brasileira (de todos os bens) entre US$ 1,2 bilhão e US$ 3,8 bilhões após o décimo ano de implementação do acordo, ou seja, um ganho estimado entre 2% a 7% do comércio. A maior parte desses ganhos (cerca de 60%) devem vir da elevação de cotas para importação de agrícolas por parte da Europa, com destaque para carnes, açúcar, etanol e grãos.
Já o impacto estimado do lado da importação brasileira com origem no bloco europeu de todos os bens, ficou entre US$ 5 bilhões e US$ 8 bilhões, a partir do décimo ano do acordo. Isto significa um aumento anual acima de 10% após o período, com destaque para veículos, máquinas e equipamentos, cosméticos e produtos farmacêuticos.
Na prática, o acordo configura-se como uma porta apenas moderadamente aberta ao comércio, permitindo ganhos pontuais, mas sem promover uma grande revolução nas relações de entre os blocos. Ao invés de uma liberalização expressiva, trata-se de um regime de “flexibilização controlada”, que beneficia algumas atividades, mas que ainda impõe desafios.
Leia o estudo completo, apresentado no 53º Congresso da ANPEC, clicando aqui.
Leia Também
Notícias | Broadcast Agro | 13/01/26
Mercosul-UE: cota e barreira não tarifária limitam ganhos para agronegócio