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Rivalidade entre Estados Unidos e China redesenha mapa geopolítico e desafia o Brasil

20/08/26

Geopolítica | Comercio Internacional

Rivalidade entre Estados Unidos e China redesenha mapa geopolítico e desafia o Brasil

Braz Baracuhy em participação no evento.

Em lançamento de livro do diplomata Braz Baracuhy no Insper, especialistas discutem crise do multilateralismo, novas disputas por poder e caminhos para o país

A disputa entre Estados Unidos e China está reorganizando o sistema internacional, redesenhando alianças e alterando fluxos de comércio, investimento e tecnologia. Esse foi o fio condutor do debate promovido pelo Insper Agro Global no lançamento do livro Geopolítica Global: O Mapa Estratégico do Mundo Contemporâneo, do diplomata Braz Baracuhy. O encontro, realizado na noite de 13 de agosto, reuniu os embaixadores Alexandre Parola e Flávio Damico, a professora Fernanda Magnotta e Alberto Pfeifer, Policy Fellow do Insper Agro Global, com mediação de Marcos Jank, coordenador do centro.

Na abertura, Jank situou o debate no conjunto de temas acompanhados pelo Insper Agro Global — comércio internacional e segurança alimentar, geopolítica, estratégia e segurança internacional do agronegócio, meio ambiente e energia — e destacou a atualidade do livro num momento de profundas transformações na geopolítica e na geoeconomia. Ao observar que “geopolítica não é assunto novo”, ressaltou a permanência, em novos contextos, de questões antigas como o controle do território, das rotas marítimas e dos equilíbrios de poder.

Baracuhy organizou seu diagnóstico em torno de três transformações. A primeira é a passagem de um mundo unipolar, centrado nos Estados Unidos depois da Guerra Fria, para uma estrutura bipolar em que Washington e Pequim concentram a maior capacidade de projeção global. A segunda é o enfraquecimento da ordem liberal baseada em instituições e regras de alcance universal, como ONU e OMC, com a formação paralela de arranjos e ordens parciais. A terceira é a transição da globalização econômica para o que ele chama de “biglobalização geoeconômica”, em que comércio, investimentos, tecnologia e finanças passam a ser condicionados pela segurança econômica e pela rivalidade geopolítica.

Para o Brasil, essa mudança é especialmente relevante: o país está no hemisfério ocidental, área de interesse estratégico dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que tem na China seu principal parceiro comercial. “Nostalgia não é estratégia. Estratégia é olhar para o futuro, estratégia é olhar pelas tendências, estratégia é olhar como nós vamos nos conformar nessas grandes transformações”, afirmou.

 

Uma ordem menos universal

A crise das instituições multilaterais foi um dos eixos centrais da discussão. Alexandre Parola, que já representou o Brasil na Organização Mundial do Comércio, avaliou que a paralisia da OMC é anterior às tensões mais recentes e resulta tanto das dificuldades do sistema de solução de controvérsias quanto do modelo decisório baseado no consenso. Para ele, a organização tende a sobreviver, mas deverá se adaptar a formatos mais flexíveis, com acordos setoriais e plurilaterais.

Parola resumiu a mudança em uma frase: “O mundo que está emergindo é sem regras, mas não é sem lógica”. Em sua avaliação, a volta da geopolítica recoloca o poder no centro das relações internacionais e reforça a importância do Estado nacional — sem que isso signifique o desaparecimento das instituições. A OMC, disse, deverá continuar funcionando como corpo normativo para boa parte do comércio, ainda que tenha dificuldades para incorporar temas novos, como inteligência artificial.

Fernanda Magnotta concentrou sua análise na transformação dos Estados Unidos e na evolução da competição com a China. Para ela, atribuir as mudanças recentes exclusivamente a Donald Trump é insuficiente. “Trump é um sintoma, ele não é a causa da doença”, disse. O declínio relativo da capacidade americana de projeção de poder começou muito antes, mas Trump rompeu de maneira mais explícita com o consenso de que a liderança dos Estados Unidos seria exercida por meio das instituições e regras que Washington ajudou a criar no pós-guerra.

Ao mesmo tempo, a China de hoje é muito diferente daquela do início dos anos 2000. Projetos como a Belt and Road Initiative e o Made in China 2025 simbolizam uma estratégia de reposicionamento do país, que hoje ocupa posições de destaque em inteligência artificial, robótica, telecomunicações e veículos elétricos. A disputa sino-americana, por isso, avançou do comércio para uma fronteira mais sensível, a tecnológica — mudança que também recolocou a América Latina no radar estratégico de Washington, como parte de uma competição política mais ampla.

Flávio Damico levou a discussão para o Sudeste Asiático, onde a rivalidade se manifesta de forma concreta. Destacou a importância estratégica do Estreito de Malaca, por onde circulam fluxos relevantes de energia, recursos naturais e bens manufaturados, e as disputas no Mar do Sul da China. Para ele, essas tensões ajudam a entender como países próximos de uma grande potência tentam equilibrar interesses econômicos e de segurança.

Damico fez uma ressalva: a tensão não torna a guerra inevitável. “Nós estamos num mundo que está em aberto, por construir, não há nenhuma inevitabilidade”, afirmou. Mesmo durante a Guerra Fria houve períodos de confronto e distensão; por isso, ainda existe espaço para acomodações entre os dois países, embora campos como a inteligência artificial sejam particularmente difíceis de conciliar.

 

Onde o Brasil entra nesse mapa

Jank levou a discussão para a capacidade brasileira de formular estratégias de longo prazo, lembrando que vantagens atuais do país vêm de políticas de Estado construídas décadas atrás — a Embrapa, a ocupação produtiva do Centro-Oeste e o programa de biocombustíveis nascido da crise do petróleo dos anos 1970. A partir desses exemplos, provocou os participantes a discutir se o Brasil ainda é capaz de construir uma visão estratégica de dimensão semelhante.

A posição brasileira ganhou destaque na intervenção de Alberto Pfeifer, cujo argumento partiu de uma noção ampla de segurança: grandes potências precisam garantir acesso a alimentos, energia, minerais, água e outros recursos indispensáveis à estabilidade de suas sociedades. O Brasil dispõe de ativos que ganham valor estratégico, mas ainda não os transformou plenamente em poder de negociação e influência.

Pfeifer recuperou a expansão do agronegócio brasileiro para mostrar que ela resultou de uma visão geopolítica de ocupação do território e domínio tecnológico. A consolidação da Embrapa e o desenvolvimento da agricultura tropical permitiram ao país superar uma antiga vulnerabilidade alimentar e se tornar um dos grandes fornecedores globais. “Só nós sabemos fazer agricultura tropical, ponto. Ninguém sabe fazer agricultura tropical como nós sabemos”, afirmou, apontando que essa capacidade tende a ganhar relevância num cenário de mudanças climáticas.

O desafio, segundo Pfeifer, é ir além da condição de produtor e exportador. O Brasil depende de rotas marítimas para escoar safras e receber insumos, além de manter vulnerabilidades em áreas como fertilizantes. Por isso, alimentos, energia, minerais e água deveriam ser tratados não apenas como mercadorias, mas como recursos de poder — algo que Parola descreveu como política de Estado, com participação importante também do setor privado.

Magnotta reforçou essa leitura: a condição brasileira é potencialmente melhor do que em outros momentos, porque o país oferece recursos fundamentais para o futuro. A questão é transformar esse potencial em poder efetivo, evitando dependência excessiva tanto dos Estados Unidos quanto da China. “A estratégia da diversificação, no final do dia, é a estratégia da prevenção ao risco”, afirmou.

Na rodada final, o debate convergiu para a necessidade de o Brasil desenvolver uma visão estratégica de longo prazo. Baracuhy defendeu que a política externa seja tratada como política de Estado e voltou ao propósito do livro: ampliar o olhar sobre a geopolítica para além da dimensão estritamente militar. Chancelarias, diplomacias, serviços de inteligência e empresas, afirmou, precisam incorporar de forma mais sistemática as relações entre poder, território, recursos, tecnologia e segurança. “Esse livro é um convite a essa expansão da visão sobre geopolítica”, disse.

Num cenário em que as regras estão em transformação e as grandes potências redefinem prioridades, o encontro apontou um desafio para o Brasil: compreender como a nova distribuição de poder afeta seus interesses e transformar suas vantagens em alimentos, energia, água, minerais e tecnologia em capacidade efetiva de ação internacional.

 

Assista o vídeo do evento completo pelo Youtube.