Opinião: Agro pode bater recordes em 2026, mas a conta ainda não fecha no campo
02/06/26 - Leandro Gilio
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Indicadores macro como PIB e exportações seguem com tendência de alta em 2026, mas o aumento dos custos, o endividamento e a compressão das margens revelam desafios que os números agregados não mostram.
O agronegócio brasileiro tem apresentado indicadores macroeconômicos bastante favoráveis em 2026. No primeiro trimestre, o PIB da agropecuária (relativo apenas às atividades realizadas dentro da porteira) avançou 0,7% em relação ao mesmo período de 2025, ano em que o setor já havia registrado expressivo crescimento de 11,7% (no ano completo, em comparação com 2024). As perspectivas para a produção também seguem positivas: a safra brasileira de grãos 2025/26 deve alcançar um novo recorde de 358 milhões de toneladas, volume 1,6% superior ao da safra anterior, que já tinha sido histórica. O principal destaque é a soja, cuja produção está estimada em mais de 180 milhões de toneladas, um aumento de 8,6 milhões de toneladas em relação ao ciclo passado, segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
O desempenho global do comércio exterior reforça esse cenário. Entre janeiro e abril de 2026, as exportações do agronegócio cresceram quase 4% em valor (dólares correntes) na comparação com o mesmo período do ano anterior. Entre os segmentos de maior destaque estão as carnes e o complexo soja, cujas vendas externas avançaram cerca de 20% e 15%, respectivamente, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).
No entanto, os números agregados contam apenas parte da história. Por trás do desempenho positivo observado nas estatísticas macroeconômicas nacionais, produtores rurais enfrentam um ambiente cada vez mais desafiador, marcado pela elevação dos custos, pelo aumento dos riscos e pelo agravamento das dificuldades financeiras. Trata-se de uma realidade que nem sempre aparece imediatamente nos indicadores macroeconômicos, mas que tende a produzir reflexos relevantes sobre atividades do setor nos próximos períodos.
Não por acaso, a expressão “tempestade perfeita” passou a ganhar espaço no debate público. A ex-ministra e senadora Tereza Cristina utilizou o termo recentemente, durante um evento do setor, para se referir aos sinais crescentes de deterioração das condições enfrentadas pelos produtores. A mesma expressão foi utilizada pelo atual ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, que, em entrevista recente, descreveu o momento vivido pelo agro como uma conjuntura em que diversos sinais de alerta estão “piscando ao mesmo tempo”.
Esses alertas podem ser resumidos em uma combinação preocupante de fatores: custos de produção em forte alta, preços das commodities que não acompanham esse movimento, elevado nível de endividamento e incertezas. Contudo, essa conjuntura não deve ser interpretada como um fenômeno adverso natural ou passageiro. Ela expõe fragilidades estruturais acumuladas ao longo de décadas.
A pressão recente sobre insumos ilustra bem essa vulnerabilidade. Impulsionados pelas guerras e disputas comerciais internacionais, os preços dos fertilizantes registraram forte elevação. O maior impacto direto foi sobre os nitrogenados: de acordo com dados da Platts, o preço da ureia granulada aumentou mais de 60% entre fevereiro e abril. No mesmo período, o sulfato de amônio registrou alta próxima de 40%. Na mesma direção, os fertilizantes fosfatados também seguiram trajetória semelhante. Como referência, o preço do MAP (fosfato monoamônico) avançou cerca de 30% entre janeiro e maio, segundo levantamento do Itaú BBA com base em dados da LSEG/Consultoria Agro.
Com isso, os fertilizantes atingiram os maiores níveis de preços desde 2022, período marcado pelos impactos da invasão da Ucrânia pela Rússia e pelos efeitos da pandemia de COVID-19, além de potenciais riscos de desabastecimento. Mais do que um movimento conjuntural, essa nova escalada evidencia, novamente, a maior vulnerabilidade estrutural do sistema produtivo brasileiro: solos que demandam reposição contínua de nutrientes para sustentar elevados níveis de produtividade, enquanto cerca de 85% dos fertilizantes consumidos no país tem origem importada.
Além disso, as cadeias de nitrogênio, fósforo e potássio apresentam estruturas produtivas distintas e dependem de diferentes regiões do mundo para seu abastecimento. Essa característica faz com que cada grupo de nutrientes esteja sujeito a riscos específicos de natureza geopolítica, logística e comercial, ampliando a exposição do país a choques externos (leia mais detalhes no estudo “Fertilizantes e a vulnerabilidade estrutural do agro brasileiro”).
Ainda em insumos, o preço de revenda do óleo diesel subiu cerca de 15% entre janeiro e maio, segundo dados da ANP, encarecendo principalmente os fretes rodoviários, ainda responsáveis por cerca de 70% do escoamento da produção nacional, conforme relatório da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).Como consequência, aumentos nos custos energéticos acabam se espalhando por toda a cadeia agroindustrial, evidenciando a dificuldade do país em estruturar alternativas logísticas mais eficientes.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) vem emitindo alertas de condições favoráveis a um episódio de El Niño em fase de formação, com mais 80% de chance de consolidação, podendo se estender até o início de 2027, o que pode gerar quebras de safra e prejuízos a produtores e população consumidora. No entanto, ainda não se verificam novas políticas de contenção e mitigação desses riscos iminentes.
Os juros persistentemente elevados e a maior restrição ao crédito também vêm gerando dificuldades para o custeio, investimentos e também de uma possível gestão de prejuízos. A taxa Selic atualmente em 14,50% ao ano mantém os juros de mercado em patamar elevado e, combinada ao avanço no número de recuperações judiciais, tem levado bancos a exigir mais garantias e cautela nas operações com o setor. Segundo levantamento da Serasa Experian, em 2025 houve retração de 17% no volume de crédito rural, movimento que, segundo a entidade, deve se intensificar ao longo de 2026.
A renegociação das dívidas rurais também passa a ocupar posição central no debate. Uma parcela crescente dos produtores já se encontra fora do mercado de crédito ou sem capacidade de assumir novos financiamentos, tema que vem sendo discutido para receber tratamento mais adequado no próximo Plano Safra.
Ao mesmo tempo, os preços recebidos pelos produtores têm contribuído para agravar esse quadro. Como referência, houve queda nominal de 3,6% na média dos preços da soja entre janeiro e maio de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior, conforme o indicador CEPEA/ESALQ Paranaguá. Esse movimento reflete a maior oferta, tanto no Brasil quanto na América do Sul, além de expectativas de expansão da área cultivada nos Estados Unidos. Outras commodities agrícolas também vêm registrando recuos em relação ao mesmo período do ano passado. E o excesso de produto no mercado deve ser escoado, dado que o país tem baixa capacidade de armazenagem, mais um problema relacionado ao entrave estrutural logístico. E ainda há novas barreiras de mercado que vem sendo impostas, como os impedimentos à exportação de produtos de origem animal pela União Europeia (leia mais aqui) e também as tarifas que podem ser implementadas pelo EUA via investigação na seção de 301 da lei comercial estadunidense (leia mais aqui), que indicam a necessidade de maior esforço diplomático e eventualmente ajustes produtivos para comprovação de cumprimento de regras comerciais.
Em suma, os resultados positivos do agronegócio evidenciam a alta capacidade de produção do setor, mas o cenário atual indica que esse desempenho não tem se traduzido, necessariamente, em rentabilidade para os produtores. Os preços relativos da produção têm se mostrado consistentemente inferiores à evolução dos custos, em grande medida pressionados por choques exógenos. Mas, ao mesmo tempo, revelam problemas estruturais que reforçam a necessidade de avanços na gestão de riscos, justamente em um contexto dificultado pelo elevado patamar dos juros. Essa combinação deve começar a impactar as próximas safras, como resultado da dificuldade de se realizar necessários novos investimentos. E, a partir daí, essa “tempestade” poderá se refletir nos dados macroeconômicos.
Nesse contexto, as respostas públicas e privadas precisam ir além de medidas emergenciais voltadas para momentos de crise. O desafio central é enfrentar gargalos estruturais relacionados à dependência de insumos importados, à logística, à armazenagem, ao crédito e gestão mais adequada de risco. O agronegócio brasileiro demonstrou, mais uma vez, sua extraordinária capacidade de produzir e gerar divisas. No entanto, a sustentabilidade desse desempenho dependerá cada vez mais da capacidade de reduzir vulnerabilidades que permanecem ocultas em períodos de bonança, mas que emergem com força sempre que o ambiente econômico e geopolítico se torna menos favorável.
Sobre o autor:
Leandro Gilio é professor e pesquisador do Insper, compõe o grupo de pesquisadores do Núcleo de Agro Global (Insper Agro Global). Leandro é economista, mestre e doutor em Economia Aplicada pela Universidade de São Paulo e experiência em pesquisa relacionada ao agronegócio.
*O texto acima é de responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, uma opinião do Insper Agro Global.
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