Plano Safra 2026/27 é anunciado com volume nominal recorde de recursos, mas deixa de enfrentar desafios estruturais do setor
01/07/26 - Leandro Gilio
Política | Macroeconomia | Segurança Alimentar
Foto Wenderson Araújo/Trilux | Sistema CNA/Senar
Apesar do volume nominal recorde de R$ 622,4 bilhões, o plano para o próximo ciclo não avança em seguro rural, renegociação de dívidas e acesso efetivo ao crédito.
Anunciado em 30 de junho de 2026, com vigência entre 1º de julho de 2026 e 30 de junho de 2027, o Plano Safra 2026/27 prevê um volume nominal recorde de recursos para o crédito rural. Serão R$ 525,1 bilhões à agricultura empresarial, crescimento de 1,7% em relação ao ciclo anterior, e R$ 97,3 bilhões à agricultura familiar, aumento de 9% na mesma comparação.
Apesar do crescimento nominal dos recursos, o plano não altera as condições de financiamento do setor. A política mantém sua estrutura baseada na oferta de crédito com algum grau de subsídio, mas deixa de enfrentar desafios que se tornaram centrais para a sustentabilidade financeira da agropecuária brasileira, como o elevado endividamento dos produtores e mecanismos de negociação, as restrições de acesso ao crédito e o seguro rural. Em um contexto de custos elevados, maior exposição aos riscos climáticos e de mercado, esses fatores tendem a limitar a capacidade do plano de sustentar garantias e dar previsibilidade ao produtor na próxima safra.
O custo fiscal do Plano Safra decorre da equalização das taxas de juros do crédito rural, mecanismo pelo qual o governo cobre a diferença entre o custo de captação das instituições financeiras e a taxa efetivamente paga pelo produtor. Esse subsídio concentra-se principalmente nas linhas voltadas à agricultura familiar e aos programas de agricultura de baixo carbono. Para a safra 2026/27, o custo da equalização foi estimado em R$ 18,1 bilhões, cerca de 35% superior ao registrado no ciclo anterior. Ainda assim, as taxas de juros anunciadas tiveram reduções modestas, entre 0,5 e 1,5 ponto percentual em algumas linhas, enquanto outras permaneceram inalteradas. A elevada taxa básica de juros da economia (Selic de 14,25% a.a.[1]) restringe o espaço para reduções mais expressivas, ao mesmo tempo em que problemas fiscais do governo reduzem a capacidade de ampliar os subsídios. Como resultado, o custo do crédito rural permanece elevado justamente em um momento de compressão das margens de rentabilidade dos produtores (ver mais detalhes em “Agro pode bater recordes em 2026, mas a conta ainda não fecha no campo”).
O desafio da atual conjuntura vai ainda além do nível das taxas de juros. O ambiente de crédito tornou-se significativamente mais restritivo: a inadimplência rural atingiu patamares historicamente elevados, segundo dados do Banco Central e da Serasa Experian, enquanto o aumento das recuperações judiciais elevou a percepção de risco das instituições financeiras, levando bancos a adotarem critérios mais conservadores.
Esse movimento já pôde ser observado na safra anterior. As contratações de crédito para custeio recuaram 11%, enquanto as concessões caíram 15%. No crédito para investimento, a retração foi ainda mais intensa: queda de 16% nas contratações e de 30% nas concessões[2]. Esses indicadores mostram que o volume de recursos anunciado pelo Plano Safra não se traduz diretamente em maior disponibilidade de financiamento. Na prática, a efetiva liberação dos recursos depende da disposição das instituições financeiras em assumir risco e da capacidade dos produtores de atender aos critérios de concessão. Outra questão crítica é a diminuição de recursos destinados à créditos de custeio e comercialização, que financia as despesas operacionais do ciclo produtivo (insumos e mão de obra), garantindo a produção.
Destaca-se também a completa ausência de ações sobre seguro rural. O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) vem sofrendo sucessivas restrições orçamentárias e, em 2026/27, deverá atender menos de 3% da área plantada, o menor nível das últimas duas décadas. A limitação é especialmente preocupante diante das previsões de formação de um evento El Niño de maior intensidade, com potencial para elevar as perdas agrícolas em diversas regiões produtoras. Como resposta, o governo anunciou apenas a criação de um grupo de trabalho para acompanhar os impactos climáticos, iniciativa considerada insuficiente por representantes do setor diante da necessidade de ampliar os instrumentos de gestão de risco.
No campo ambiental, o plano reforça incentivos à produção sustentável. Entre as medidas anunciadas, está a vedação do uso de crédito rural subsidiado em empreendimentos que envolvam supressão de vegetação nativa, além da concessão de desconto de até um ponto percentual nas taxas de juros de custeio para produtores com Cadastro Ambiental Rural (CAR) regular e que adotem práticas agropecuárias sustentáveis certificadas. As medidas aproximam a política agrícola da agenda ambiental, embora permaneçam dúvidas quanto à interpretação da vedação à supressão de vegetação nativa. Não está claro se a restrição se aplica apenas aos casos de desmatamento ilegal ou também à supressão autorizada pelo Código Florestal, o que poderá gerar insegurança jurídica e conflitos na implementação da política.
Em síntese, o Plano Safra 2026/27 é lançado em um contexto de indicadores macroeconômicos favoráveis para a agropecuária - crescimento de 0,7% do PIB do setor no primeiro trimestre de 2026, safra recorde de grãos estimada em 358 milhões de toneladas e expansão de cerca de 4,5% das exportações do agronegócio -, mas esses resultados não têm se traduzido em maior rentabilidade para os produtores. O aumento dos custos financeiros, a restrição do crédito e o crescimento do endividamento comprimem as margens e podem comprometer o desempenho da próxima safra. Nesse contexto, embora amplie nominalmente os recursos disponíveis, o Plano não avança sobre os fatores que hoje limitam sua efetividade. Sem medidas estruturais para fortalecer o seguro rural, ampliar o acesso ao crédito e enfrentar o elevado endividamento, o volume recorde pode não se traduzir em efetivo apoio à produção.
[1] Dados do Banco Central do Brasil disponíveis em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/noticias/2026/credito-rural-empresarial-atinge-r-404-bilhoes-no-plano-safra-2025-2026
[2] Dados do Banco Central do Brasil: https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/historicotaxasjuros
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