Insper Agro Global debate geopolítica dos fertilizantes e lança estudo sobre impactos no agronegócio brasileiro.
28/11/25
Pesquisa revela que Brasil importa 90% dos fertilizantes consumidos e depende fortemente da Rússia, expondo o setor a riscos geopolíticos crescentes em cenário de conflitos internacionais
A crescente instabilidade geopolítica mundial impõe ao agronegócio brasileiro um paradoxo: enquanto o país consolida sua posição como potência exportadora de alimentos, torna-se simultaneamente mais vulnerável aos riscos de fornecimento de insumos essenciais à produção agrícola. Essa contradição esteve no centro das discussões do evento “Geopolítica Global dos Fertilizantes: Impactos sobre o agronegócio brasileiro”, promovido em 26 de novembro pelo Insper Agro Global. O encontro, que marcou o lançamento de um estudo inédito sobre o tema, reuniu especialistas do setor para analisar como a reconfiguração do tabuleiro internacional — marcada por conflitos armados, protecionismo comercial e sanções econômicas — está transformando o mercado de fertilizantes em uma arena de disputas geopolíticas com consequências diretas para a segurança alimentar e a competitividade do agro nacional.
Durante as discussões, Ricardo Tortorella, diretor executivo da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), destacou o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), elogiando suas diretrizes, mas ponderando que sua implementação ainda carece de tração para oferecer a segurança jurídica necessária aos investimentos privados. Segundo ele, embora o plano aponte soluções para diversos gargalos, esses avanços ainda não se materializam na prática, o que limita decisões de longo prazo no setor.
Bernardo Silva, diretor executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert), ressaltou que a instabilidade e a incerteza no Brasil dificultam a entrada de capital estrangeiro, sobretudo em um setor de maturação longa, que ainda não dispõe dos incentivos necessários para destravar valor suficiente aos investidores. Silva também apresentou um panorama do mercado mundial de fertilizantes, analisando os principais atores e o nível de autossuficiência do Brasil nesses insumos.
Luiz Carlos Corrêa Carvalho, da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), destacou que o uso intensivo de fertilizantes na agricultura brasileira tem contribuído de forma relevante para o aumento da produtividade, especialmente em um contexto de clima tropical que demanda maior utilização de insumos e defensivos. Ressaltou ainda que esse uso intensivo não explica, por si só, os processos de degradação dos solos. Segundo ele, a degradação está mais associada ao uso inadequado de insumos, frequentemente não adaptados às condições tropicais, do que ao uso de fertilizantes propriamente dito.
Alerta para vulnerabilidade brasileira
O evento marcou o lançamento do working paper “Geopolítica Global dos Fertilizantes: Impactos sobre o agronegócio brasileiro”, elaborado pelo Insper Agro Global. O trabalho analisa como a escalada da instabilidade geopolítica mundial nos últimos três anos — marcada por conflitos como a invasão russa à Ucrânia e o confronto entre Israel e Hamas, além do retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos com uma postura assertiva e protecionista — afeta diretamente o mercado de fertilizantes.
Segundo o estudo, o mercado mundial de fertilizantes funciona como um oligopólio bilateral, conectando poucos países ricos em recursos minerais e energéticos a grandes produtores de alimentos. O Brasil, que exportou US$ 164,3 bilhões em produtos agropecuários em 2024, depende fortemente de fertilizantes importados, o que o torna especialmente vulnerável a choques geopolíticos.
Os dados revelam que, em 2024, o Brasil importou 90% dos fertilizantes consumidos, sendo 43% de potássio (K), 35% de nitrogênio (N) e 22% de fósforo (P). A dependência mais sensível é a do potássio, com 97% do abastecimento vindo do exterior. O país absorve 23% das importações mundiais de fertilizantes e é tomador de preço, enquanto Rússia e China respondem por 41% das exportações globais.
Entre os principais riscos identificados estão a concentração da oferta global — já que 40% dos fertilizantes brasileiros vêm da Rússia, país sujeito a sanções e pressões externas —, o risco energético, evidenciado pelo aumento de 105% no custo da energia e de 129% nos preços dos fertilizantes entre 2021 e 2022, e a crescente disputa por matérias-primas, como o ácido fosfórico, cada vez mais demandado pela indústria de baterias elétricas.
Diante desse panorama, o estudo propõe estratégias para mitigar os riscos e garantir a segurança do fornecimento de insumos essenciais à manutenção da competitividade do agronegócio brasileiro. As recomendações incluem o fortalecimento da produção nacional, a diversificação de fornecedores internacionais, a modernização logística e o uso de uma diplomacia estratégica para assegurar o fornecimento estável de insumos agropecuário ao Brasil, fortalecendo a sua posição de fornecedor confiável de alimentos em meio à turbulência da nova ordem geopolítica.
Acesse o estudo completo lançado no evento: Clique aqui e confira
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