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Opinião: Armazém é geopolítica e o Brasil ainda não percebeu

31/03/26 - Patrícia Arantes de Paiva Medeiros

Geopolítica | Segurança Alimentar | Logística e Infraestrutura

Opinião: Armazém é geopolítica e o Brasil ainda não percebeu

Banco de imagens do sistema CNA/SENAR

Os números de defasagem de armazenamento da produção agropecuária brasileira concorrem contra a competitividade do setor e pode impactar oportunidades geopolíticas

Em março de 2025, Pequim anunciou um orçamento de US$ 18,12 bilhões para estocar grãos, óleos e outros insumos alimentares, aumento de 6,1% em relação ao ano anterior. A justificativa oficial foi direta: preparar o país para "tensões geopolíticas prolongadas" e reduzir dependência de suprimentos externos. Para a China, reservas de grãos são premissas de Estado.

O Brasil entra em 2026 com a menor relação entre capacidade de armazenagem e produção dos últimos 20 anos: 61,7%, segundo estimativas da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) com base em dados da Conab. Para cada 100 toneladas que o campo produzirá nesta safra, há espaço físico para guardar apenas 62. A pergunta que esse dado coloca não é de logística, mas de estratégica.

A produção nacional de grãos triplicou nas últimas duas décadas, puxada pela expansão das fronteiras agrícolas e por ganhos expressivos em genética e mecanização, mas a infraestrutura não cresceu no mesmo ritmo. A capacidade de armazenagem não acompanhou. O déficit projetado para a safra atual chega a 135,4 milhões de toneladas abaixo da produção esperada de 353,4 milhões.

 Antes de usar esse número como diagnóstico único, porém, é preciso calibrá-lo. O Brasil opera com pelo menos duas grandes safras por ano e sem inverno rigoroso, o que elimina a necessidade de estocar toda a produção de uma vez. Os EUA, com capacidade equivalente a 130% da produção anual, dimensionam seus armazéns para atravessar meses de entressafra que o Brasil simplesmente não tem.

O problema real está em outro lugar: na ausência de um mapeamento detalhado de onde os gargalos existem e para quem o investimento em armazém faz sentido dentro da cadeia. Sem armazém, o produtor entrega sem a liberdade de escolha de quando entregar.

A consequência direta da baixa capacidade de armazenagem é documentada e repetida safra após safra. Sem onde guardar a produção, o produtor é compelido a escoar os grãos logo após a colheita, no momento em que a oferta está no pico e os preços, na mínima. Essa venda compulsória reduz seu poder de barganha com as grandes tradings multinacionais que dominam o elo de comercialização.

O impacto coletivo vai além da perda de margem individual. A concentração do escoamento em janela de tempo curta sobrecarrega caminhões, terminais portuários e vagões de trem, elevando fretes e criando congestionamentos que encarecem toda a cadeia. O produtor paga duas vezes: na venda apressada e no frete caro. Quem tem armazém, escolhe quando vender. Quem não tem, entrega quando a trading quer comprar.

A narrativa mais recorrente aponta os juros altos como principal barreira ao investimento em armazenagem. O crédito existe, mas a pergunta é outra: como é acessado? Os dados do setor complicam essa explicação. O Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA), principal linha de crédito do Plano Safra para esse fim, operou na média dos últimos anos com apenas 64% de utilização dos recursos disponíveis, conforme dados da FGV Agro repercutidos por O Globo. O dado mais revelador: essa subutilização se manteve mesmo entre 2018 e 2021, quando as taxas de juros estavam consideravelmente mais baixas.

Se crédito barato não foi suficiente para disparar o investimento, ampliar o volume do PCA pode ser resposta insuficiente para o problema errado. A questão está no desenho do instrumento: a quem se destina, quais garantias exige, como se distribui ao longo da cadeia. Um armazém de grãos exige investimento entre R$10 milhões e R$25 milhões, com retorno diluído no tempo. Para cooperativas com escala, o investimento é viável e apresenta lógica clara. Para o produtor individual de médio porte, a conta raramente fecha sem condições diferenciadas de prazo e garantia. Política de armazenagem que trata todos os agentes da mesma forma é aplicação de recurso público sem diagnóstico.

 

A China vinculou explicitamente o aumento de seu orçamento de reservas à preparação para "riscos geopolíticos crescentes". A pesquisadora Genevieve Donnellon-May, da Oxford Global Society, sintetizou a lógica: o objetivo é "estabelecer uma linha de base mínima para evitar que as reservas caiam a um determinado nível". Em outras palavras, segurança alimentar como piso de Estado, não como aspiração de política agrícola. Estoque é geopolítica.

Os Estados Unidos sustentam capacidade equivalente a 130% da produção anual e incluem no Farm Bill financiamento direto de infraestrutura de armazenagem para produtores rurais, como componente explícito de competitividade. O contexto atual dá urgência a esse debate. Em fevereiro, o índice de preços de alimentos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) registrou alta de 0,9%, encerrando cinco meses consecutivos de queda, um movimento puxado por cereais, óleos vegetais e carnes, com pressões de geada nos EUA e Europa e distúrbios logísticos no Mar Negro. Conflitos no Oriente Médio, como no Irã, seguem pressionando rotas de fertilizantes e perturbando cadeias de abastecimento.

Nesse ambiente, a capacidade de reter grãos virou ativo de negociação. Países importadores de alimentos constroem reservas para se defender de choques de oferta. Países exportadores, como o Brasil, precisam de armazenagem para escolher quando vender, não apenas para escoar o que não cabe no campo. Para o importador, o estoque é defesa. Para o exportador, é alavanca.

Mas como mudar? A primeira constatação é a de que construir uma política de armazenagem eficaz começa por saber onde o problema existe. Um mapeamento nacional detalhado de gargalos, por município, por cultura e por elo da cadeia, permitiria direcionar instrumentos ao ponto certo, em vez de distribuir crédito de forma pulverizada. As cooperativas agrícolas são os agentes com maior capacidade e vocação para investir em armazenagem coletiva. Uma política diferenciada para esse segmento tem impacto multiplicador direto sobre o produtor associado.

O caso da Coamo — cooperativa agrícola de grande porte que atua em Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina, com 6,5 milhões de toneladas de capacidade instalada e plano de expansão para 7 milhões de toneladas até 2027 — ilustra como o modelo cooperativo opera onde o produtor individual não consegue. A cooperativa chega antes do caminhão da trading. Para produtores de médio porte sem acesso a cooperativas consolidadas, estruturas de consórcio e parcerias público-privadas para armazéns compartilhados podem ser mais eficientes que o financiamento individual.

E o próprio PCA precisa ser revisitado nas suas exigências, prazos e critérios de elegibilidade. A subutilização de 36% dos recursos disponíveis é um diagnóstico que pede revisão de instrumento, não apenas de dotação orçamentária.O Brasil projeta colher 353 milhões de toneladas de grãos nesta safra, segundo a Conab. Tem o solo, o clima, a genética e o produtor. O que ainda falta é uma política de Estado que trate a infraestrutura de armazenagem pelo que ela representa: não obra de apoio logístico, mas instrumento de posicionamento no mercado global de alimentos.

Enquanto a China destina bilhões à formação de reservas estratégicas e os EUA sustentam capacidade acima da produção como escolha deliberada de política agrícola, o Brasil produz para o mundo no ritmo que os armazéns alheios permitem. Nenhum outro país exporta tanto alimento e depende tanto do relógio do mercado para decidir o momento de vender. Vale perguntar quanto essa dependência custa, safra a safra.

 

Sobre a autora:

Patrícia Arantes de Paiva Medeiros é diretora executiva da Sociedade Rural Brasileira e advogada, mestre em Direito, Justiça e Impactos na Economia pelo Centro de Estudos em Direito Econômico e Social (CEDES) sobre competitividade no agronegócio.

 

*O texto acima é de responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, uma opinião do Insper Agro Global.

 

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