Foto Wenderson Araújo/Trilux | Sistema CNA/Senar
Apesar do avanço das agtechs, a baixa presença em insumos, biotecnologia e "deep tech" expõe uma vulnerabilidade estratégica do agronegócio brasileiro
O Radar Agtech Summit 2026, realizado em 24 de março, marcou o lançamento de mais uma edição do Radar Agtech Brasil, publicação que dimensiona o amadurecimento do ecossistema de inovação do agro brasileiro. O relatório anual mapeou 2.075 startups voltadas ao agronegócio no Brasil, um avanço de 5,22% no último ano, mas tímido se comparado ao crescimento médio de 11,8% ao ano desde o início da série histórica em 2019.
A distribuição estrutural do ecossistema de startups revela um gargalo de competitividade do país. Enquanto cerca de 41% das agtechs operam "dentro da porteira" (sistemas de gestão, integração de dados, drones) e outros 41% focam "depois da porteira" (alimentos, marketplaces, soluções de sustentabilidade), apenas 18% atuam "antes da porteira", nos fundamentos da produção agropecuária, como a genética, biotecnologia, fertilizantes e serviços financeiros. O Brasil construiu infraestrutura digital para gerenciar a fazenda e escoar a produção, mas não desenvolveu empresas nesse ecossistema voltadas à química e à biologia inseridas no solo, faltando como incubadoras e laboratórios especializados. Digitalizamos a superfície, mas terceirizamos a raiz.
A consequência direta dessa assimetria tecnológica é mais um risco geopolítico. A escala da produção agropecuária garante diluição de custos e as técnicas de agricultura tropical brasileira, aliadas a um clima extremamente favorável, são fatores que posicionam o Brasil entre os líderes globais em termos de produtividade e exportação de produtos do agronegócio. Mas a dependência estrutural de importação de insumos e também de biotecnologias e patentes estrangeiras fragiliza a operação. Em um mercado global balizado por protecionismo, especialmente marcado por pautas de sustentabilidade, não é difícil imaginar o quanto essa dependência pode representar um componente de risco. A subutilização do potencial de pesquisa nacional converte-se em margem de lucro transferida para o exterior.
Para blindar o setor, é imperativo superar os termos da moda e focar em ciência, pesquisa e desenvolvimento, que de fato promovem o avanço na resolução dos gargalos do agronegócio. No entanto, as deep techs enfrentam barreiras de entrada no mercado consideravelmente maiores do que as enfrentadas pelas startups de software, porque esbarram em modelos de capital intensivo.
As deep techs, nome dado às startups focadas em pesquisa e inovações tecnológicas complexas, como biotecnologia, nanotecnologia e novos materiais, exigem infraestrutura laboratorial, prototipagem e longos ciclos de maturação para começar suas operações e alcançar escala no campo. Em contrapartida, a predileção do ecossistema de venture capital por soluções de Software-as-a-Service evidencia um viés alocativo, no qual a liquidez e o baixo custo desse mercado saturado entram em profundo descompasso com o tempo de desenvolvimento da ciência biológica. Essa dissonância de ritmos penaliza a inovação antes mesmo da fase comercial. A ciência aplicada exige capital paciente, e não a expectativa de retorno acelerado de produtos digitais.
O cenário atual de crédito e subvenção agrava o isolamento do setor. O relatório indica que 69,3% das agtechs têm como principal estratégia o bootstrapping (capital de fundadores e familiares) e apenas 15,3% acessam crédito tradicional, com mais da metade ignorando o fomento público, que em sua maioria é oferecido por meio de instrumentos não reembolsáveis. O mecanismo de acesso aos fundos estatais demanda um nível de articulação burocrática que inviabiliza a operação de empresas nascentes, enquanto o crédito privado exige garantias reais que inovadores não possuem. O risco do desenvolvimento tecnológico é integralmente transferido ao indivíduo. O desenho financeiro pune a inovação.
Nesse ambiente, alinhar a infraestrutura de capital à realidade do produtor e também do empreendedor requer novos arranjos privados. Fundos de investimento podem participar da concepção de estruturas de capitalização mais fluidas, desenhando mecanismos de fomento que dialoguem diretamente com o perfil de risco e a maturidade de empresas nascentes, ao passo que as startups devem consolidar governança corporativa para destravar esses fluxos. O Brasil já provou sua capacidade de escalar a produção alimentar no mundo. O agronegócio aprendeu a financiar a própria safra, mas quem financiará novas patentes?
Sobre o autor:
Renato Laffranchi Falcao compõe o time de pesquisadores do Insper Agro Global. Engenheiro da Computação pelo Insper, tem experiência em análise de dados e no desenvolvimento de soluções voltadas à automação e Inteligência Artificial, e contribui para a elaboração de estudos de comércio exterior e políticas comerciais, com foco na implementação de tecnologias inovadoras que impulsionam a eficiência das pesquisas no agronegócio brasileiro.
*O texto acima é de responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, uma opinião do Insper Agro Global.
Referências
SAKUDA, Luiz Ojima; FAVARIN, Aurélio Martins; JÁBALI, Pedro Prudente Corrêa (Orgs.). Radar Agtech Brasil 2025: Mapeamento de Startups, Ambientes de Inovação e Investidores do Ecossistema Agro Brasileiro. Brasília e São Paulo: Embrapa, SP Ventures e Homo Ludens, 2026. Disponível em: https://radaragtech.com.br
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