ECONOMIA E COMÉRCIO INTERNACIONAL
O que é blended finance e como essa modalidade de financiamento pode apoiar a produção e acelerar a transição sustentável?
02/12/25 - Gabriela Mota da Cruz | Maria Morais Garcia Leal
Baixo Carbono | Meio Ambiente | Política | Segurança Alimentar | Macroeconomia
Foto Wenderson Araújo/Trilux | Sistema CNA/Senar
Novas estruturas financeiras podem impulsionar tecnologias de baixo carbono e fortalecer a competitividade do agro.
A expansão dos mercados internacionais e as pressões por sustentabilidade tornaram urgente a busca por novos modelos de financiamento para modernizar o campo brasileiro. Tecnologias de baixo carbono, regularização ambiental, recuperação de áreas degradadas e inclusão produtiva de pequenos agricultores são caminhos bem conhecidos para uma agropecuária mais resiliente. No entanto, transformar essas soluções em projetos financiáveis ainda é um dos grandes desafios do setor – e há custos e investimentos necessários. É justamente neste espaço que o que se conhece por “blended finance” ganha importância crescente.
O “blended finance”, ou financiamento misto, em tradução direta, combina diferentes tipos de capital — público, filantrópico e/ou privado — para viabilizar projetos que, sozinhos, teriam dificuldade de acessar crédito. A lógicainicial é simples: recursos públicos ou filantrópicos assumem parte dos riscos, oferecem condições especiais ou apoiam a assistência técnica, criando um ambiente mais seguro para que bancos e investidores privados tambémparticipem. Essa estrutura não é um produto financeiro específico, mas uma estratégia que ajusta o equilíbrio entre risco e retorno, tornando projetos sustentáveis mais atraentes e viáveis.
Para entender como esse equilíbrio entre risco e retorno é construído na prática, as estruturas de blended finance normalmente se apoiam em três pilares de mitigação de risco, apresentados na Figura 1. Cada pilar cumpre uma função específica: (i) garantias e seguros de risco, que reduzem a probabilidade de perdas para investidores e melhoram as condições de crédito; (ii) capital concessional, que opera com regras mais flexíveis e absorve parcelas de risco para incentivar a entrada de capital privado; e (iii) assistência técnica, que apoia beneficiários na implementação dos projetos, reduz entraves operacionais e melhora o desempenho financeiro e ambiental das iniciativas. Em conjunto, esses mecanismos permitem reconfigurar a estrutura de capital de modo a tornar projetos socioambientais mais viáveis, especialmente em contextos onde o crédito tradicional não atua.
Figura 1: os 3 pilares de mitigação de risco do blended finance
Fonte: CONVERGENCE, 2020
O Brasil ocupa posição relevante no debate climático, seja pela grande quantidade de recursos preservados, quanto pela grande produção de alimentos. O setor agropecuário combina escala produtiva, capacidade de expansão baseada em ganhos de eficiência e um potencial expressivo de redução de emissões por meio de práticas como agricultura sustentável ou regenerativa. Para que esse potencial seja convertido em resultados mensuráveis, é necessário ampliar o acesso a instrumentos financeiros que viabilizem tecnologias de baixo carbono, conservação ambiental e inclusão produtiva.
Nesse esforço, as políticas públicas de crédito desempenham papel central. Programas como o Plano ABC+ e o RenovAgro oferecem linhas de financiamento com condições favorecidas, estimulando práticas de baixa emissão e a recuperação produtiva das propriedades. Esses instrumentos têm histórico de contribuição para a modernização da base produtiva, mas seu alcance depende do orçamento público anual e, portanto, é limitado frente à escala dos desafios ambientais e às necessidades de investimento para sustentar a transição produtiva do país.
O blended finance surge como uma estratégia complementar a essas políticas. Em vez de substituir o crédito público, reorganiza a estrutura de riscos de projetos que o mercado tradicional que tende a rejeitar por apresentarem incertezas elevadas, prazos longos de retorno ou benefícios coletivos que não são remunerados diretamente. Ao combinar capital público, filantrópico e privado, o blended finance cria arranjos capazes de reduzir riscos, ajustar a relação risco-retorno e tornar projetos socioambientais financiáveis.
A participação de governos e filantropias é especialmente relevante nesse contexto. Projetos de agro sustentável geram externalidades positivas (como redução de emissões, conservação da água e melhoria do solo) que beneficiam a sociedade como um todo, mas que não sãopossíveis de serem internalizadas no fluxo de caixa dos produtores. Como esses benefícios são, em grande medida, não excludentes, há uma lacuna natural de financiamento: muitos se beneficiam, mas poucos têm incentivos para arcar com os custos iniciais. Ao assumir camadas de risco ou oferecer condições mais flexíveis, o capital concessional tenta corrigir essa falha, absorvendo custos que não podem ser atribuídos apenas ao produtor.
Esses mecanismos funcionam, na prática, como gatilhos para destravar iniciativas que dificilmente avançariam apenas com crédito tradicional. Experiências recentes no país ilustram esse movimento: diferentes estruturas de blended finance permitiram transformar oportunidades ambientais em projetos investíveis, especialmente em cadeias agroflorestais, sistemas regenerativos e modelos produtivos de baixa emissão. O Quadro 1 sintetiza algumas dessas iniciativas, mostrando como garantias, assistência técnica, capital concessional e instrumentos de mitigação de risco têm sido utilizados em diferentes regiões e perfis produtivos.
Quadro 1 – Exemplos fundos de blended finance existentes no agro brasileiro

Fonte: Desenvolvido com base em Leal (2025).
Entre as iniciativas brasileiras de blended finance, o Eco Invest Brasil se destaca como uma das mais consolidadas, tanto pela escala de atuação quanto pelo uso estratégico de recursos públicos para reduzir riscos e ampliar o acesso ao crédito sustentável. O programa foi instituído pela Lei nº 14.995, de 10 de outubro de 2024. No componente agrícola, conhecido como Caminho Verde Brasil, o programa tem como meta como meta a recuperação de até 40 milhões de hectares de pastagens de baixa produtividade ao longo dos próximos dez anos, convertendo essas áreas em terras agricultáveis de alto rendimento, sem a necessidade de desmatamento (BRASIL, 2025).
O Eco Invest representa um avanço institucional relevante ao estabelecer, por meio de regulamentações específicas do Ministério da Fazenda e do MAPA, um arcabouço legal que autoriza o uso de recursos públicos para reduzir riscos de crédito e mobilizar capital privado em larga escala. O programa opera por meio de leilões públicos, regras para aportes de equalização e mecanismos de garantia, além de promover a coordenação entre o MAPA, o Ministério da Fazenda, o BNDES e o Tesouro Nacional. A criação desse mecanismo ampliou as ferramentas disponíveis para financiar a transição produtiva do agro. Ainda assim, é cedo para medir seus resultados. A efetividade dependerá da qualidade dos projetos contratados, da capacidade de monitorar resultados ambientais e financeiros, da governança das operações e da articulação com políticas já existentes voltadas à conformidade ambiental e à rastreabilidade da produção. Entre essas políticas, destaca-se o Programa Agro Brasil + Sustentável (AB+S), instituído pelo MAPA para integrar dados oficiais de diversas bases públicas e privadas e permitir a verificação da conformidade, rastreabilidade e qualificação da produção agropecuária nacional, sendo a plataforma / ferramenta oficial para o monitoramento do ECO INVEST.
Mesmo com o apoio de iniciativas como a plataforma Agro + Sustentável, que deve gerar dados padronizados sobre boas práticas agrícolas e facilitar o monitoramento dos resultados, o Eco Invest ainda enfrenta desafios relevantes. Entre eles estão atender diferentes perfis de produtores, garantir a execução de projetos em larga escala e cumprir metas ambiciosas, como a recuperação de 1,4 milhão de hectares prevista no 2º leilão. Assim, o programa tem potencial para contribuir com a transição sustentável, mas seus impactos dependerão da qualidade da implementação e da integração efetiva com sistemas de monitoramento confiáveis.
Apesar dos avanços recentes, a escala atual de financiamento sustentável no Brasil ainda está aquém do necessário para transformar o uso da terra e modernizar a base produtiva. Persistem obstáculos estruturais, como a ausência de métricas padronizadas de impacto, limitações de transparência no uso de subsídios e baixa coordenação entre políticas públicas. Esses fatores dificultam a preparação de carteiras consistentes de projetos e restringem o acesso ao crédito, sobretudo para pequenos e médios produtores. Além disso, a mensuração de resultados ambientais depende de sistemas de monitoramento robustos, capazes de assegurar rastreabilidade, comparabilidade e boa governança.
A transição para uma produção de baixo carbono, portanto, requer simultaneamente políticas públicas de crédito bem estruturadas e mecanismos financeiros capazes de mobilizar novos fluxos de capital. Nesse cenário, o blended finance se apresenta como uma alternativa pragmática para reorganizar riscos, ampliar a participação de investidores privados e transformar oportunidades ambientais em projetos financiáveis. O desafio adiante é expandir a escala dessas iniciativas, aprimorar a transparência das operações e qualificar projetos de forma a garantir impacto consistente nos territórios.
Referências e leituras indicadas:
LAB – Laboratório de Inovação Financeira. Financiamento para o alcance dos ODS: A Agenda do Blended Finance no Brasil. Rio de Janeiro: ABDE, BID, CVM, GIZ, 2022. https://labinovacaofinanceira.com/wp-content/uploads/2022/06/%E2%80%8BLAB-Financiamento-para-o-alcance-dos-ODS-a-Agenda-do-Blended-Finance-no-Brasil.pdf
BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Caminho Verde Brasil: o que é o programa? Brasília: MAPA, [s.d.]. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/campanhas/caminho-verde/o-que-e-o-programa. Acesso em: 11 dez. 2025.
BRASIL. Ministério da Fazenda. Secretaria do Tesouro Nacional. Eco Invest Brasil: relatório de pré-alocação consolidado – resultado do Leilão Eco Invest nº 2/2025: recuperação de terras degradadas. Brasília: Tesouro Nacional, ago. 2025. Disponível em: https://cdn.tesouro.gov.br/sistemas-internos/apex/producao/sistemas/thot/arquivos/publicacoes/52825_2427462/anexos/25951_879351/Leila~o%20Eco%20Invest%20-%20Relato´rio%20de%20pre´-alocac¸a~o%20consolidado%206.pdf
CONVERGENCE. The state of blended finance 2019. Toronto: The Global Network for Blended Finance, 2019. Disponível em: https://www.convergence.finance
LEAL, Maria Morais Garcia. Eco Invest como ferramenta para a transição de uma agropecuária sustentável no Brasil: desafios e oportunidades. 2025. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Ciências Econômicas) – Insper, São Paulo, 2025.
GLOSSÁRIO
Recursos públicos ou filantrópicos utilizados com condições mais flexíveis (como juros menores,
garantias ou absorção de riscos) para viabilizar investimentos que não avançariam apenas com
capital privado.
Estratégia que combina recursos públicos, privados e/ou filantrópicos para reduzir riscos e tornar projetos socioambientais viáveis financeiramente, atraindo novos investidores.
Benefícios gerados por uma atividade que se estendem para toda a sociedade, como redução de emissões, melhoria do solo ou conservação da água — mas que não são remunerados diretamente pelo mercado.
Benefícios coletivos que podem ser usufruídos por todos, independentemente de quem paga por eles. No agro, serviços ambientais como sequestro de carbono ou conservação da biodiversidade são exemplos típicos.
Conjunto de instrumentos financeiros (como garantias, seguros, first loss) usados para diminuir a probabilidade de perdas e melhorar a atratividade de um projeto para investidores.
Estrutura que divide um investimento em diferentes níveis de risco e retorno. O capital público ou filantrópico geralmente assume as camadas mais arriscadas para atrair investidores privados.
Situação em que o desempenho financeiro esperado de um projeto é difícil de prever — comum em iniciativas de inovação ou em transições produtivas no agro.
Mecanismo pelo qual recursos públicos subsidiam parte dos custos financeiros para que instituições financeiras ofereçam crédito a juros mais baixos.
Sistema usado para acompanhar, registrar e comprovar indicadores ambientais e produtivos, assegurando qualidade e credibilidade nos resultados de projetos financiados.
Conjunto de iniciativas organizadas e avaliadas para receber financiamento de forma estruturada, permitindo que investidores analisem risco, retorno e impacto.
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