Por que sanidade e sustentabilidade são inseparáveis na pecuária brasileira?
12/12/25 - Gabriela Mota da Cruz | Valeria Homem
Baixo Carbono | Meio Ambiente | Política | Sanidade | Segurança Alimentar
O avanço da produtividade e a expansão dos mercados internacionais reforçam a necessidade de integrar saúde animal, sustentabilidade e resiliência climática no campo, e isso pode já ser visto na bovinocultura.
O Brasil consolidou-se como um dos principais produtores e consumidores de carne do mundo, ocupando em 2024 a quarta posição global em volume total. A pecuária exerce papel central no abastecimento interno, na geração de renda e no desempenho das exportações. Os avanços em tecnologia, gestão e produtividade são expressivos — mas convivem com desafios sanitários e ambientais que hoje moldam a competitividade do setor e redefinem as exigências dos mercados mais estratégicos.
A evolução recente da pecuária bovina ajuda a mostrar por que sanidade e sustentabilidade deixaram de ser agendas paralelas. O setor bovino avançou em
regularização ambiental, manejo, intensificação e eficiência no uso das áreas, mas também passou a enfrentar desafios que revelam o quanto essas dimensões são interdependentes. Três deles ilustram com clareza essa trajetória: 1. O caso “Boi China”, que mostrou como uma exigência sanitária pode acelerar melhorias de gestão e conformidade; 2. O atendimento a mercados exigentes como o da Comunidade Europeia e 3. A recente retirada da vacinação contra a febre aftosa, que vêm demandando sistemas de rastreabilidade robustos para conhecimento da origem dos animais e facilitação de pronta resposta a potenciais focos de doenças e seus vínculos. E olhando adiante, também os impactos de um clima mais quente, que tendem a alterar ou mesmo ampliar a ocorrência de doenças e a pressionar sistemas produtivos a serem mais resilientes. Juntos, esses fatores apontam para uma transformação em curso, na qual saúde animal, meio ambiente e eficiência produtiva se reforçam mutuamente.
No passado recente, o “Caso Boi China” tornou-se um exemplo de como uma exigência sanitária pode reconfigurar práticas produtivas muito além da saúde animal. O protocolo bilateral firmado entre Brasil e China estabelece critérios como idade máxima de 30 meses para abate, conformidade sanitária rigorosa e comprovação de origem por meio das informações constantes nas Guias de Trânsito Animal (GTA) emitidas para respaldar os eventos regulares de trânsito em todo o território nacional — uma rastreabilidade por lote, e não individual. Embora criado com foco estritamente sanitário, o conjunto de requisitos contidos nesse protocolo induziu mudanças relevantes na produção: encurtou o ciclo dos animais, estimulou manejo mais eficiente das pastagens, ampliou a adoção de sistemas intensivos e reduziu emissões ao exigir animais mais jovens. Como mostra o estudo do Insper Agro Global (Ler mais em “ O caso Boi China: como questões comerciais podem se tornar instrumentos de incentivo à produção sustentável ”), essa combinação de incentivos de mercado e ajustes técnicos gerou externalidades ambientais positivas e acelerou a modernização do setor, ilustrando como demandas externas podem impulsionar trajetórias de intensificação sustentável.
Olhando para o presente, toma-se o exemplo da retirada recente da vacinação da febre aftosa, doença de importância clássica para a bovinocultura brasileira, o para demonstrar a ampliação da importância da integração entre sanidade e ação integrada de todos os atores da cadeia produtiva.. Embora o novo status sanitário reconhecido pela Organização Mundial de Saúde Animal em maio de 2025 seja uma conquista para o Brasil, em termos técnicos, econômicos, institucionais e políticos, a notícia recente destaca que ele também eleva o risco de reintrodução do vírus — como mostram os casos recentes de países europeus que registraram focos mesmo após décadas sem vacinação (Ler mais em “ Brasil conquista status de área livre de febre aftosa sem vacinação ”). Nesse contexto, sistemas de vigilância em saúde animal para detecção precoce de casos devem ser capazes de responder rapidamente a qualquer suspeita
tornam-se essenciais, com atuação robusta dos sistemas de saúde animal, bem como o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), que surge como instrumento estratégico ao permitir a identificação precisa deos animais, das propriedades rurais em que se localizam e informações acerca dos eventos de trânsito e aglomerações animais a que venham a ser submetidos, onde se encontram e das informações sobre eventos de trânsito e aglomerações aos quais foram submetidos; viabilizando o rastreamento e a investigação de contatos em situações de emergências zoossanitárias (Ler mais em “ PNIB: rastreamento individual de bovinos e os desafios da implementação ”).
O avanço do fenômeno aquecimento global adiciona outra camada de complexidade ao desempenho dos sistemas produtivos de animais terrestres ou aquáticos,
independente da espécie animal: temperaturas mais altas e eventos climáticos extremos tendem a transformar os padrões conhecidos de doenças, nomeadamente as causadas por agentes patogênicos, que podem estar relacionadas a presença de reservatórios e vetores, naturalmente também sensíveis às condições dos ecossistemas em que ocorrem. As mudanças do clima, se ainda não ocorreram, a depender da região, hão de vir a afetar fortemente as condições de vida, a saúde geral e o bem-estar animal, e a pressionar os sistemas produtivos no tocante ao acesso aos recursos naturais a que são intrinsicamente dependentes. Por isso, construir modelos mais resilientes — com plano integrado de espécies animais e vegetais, fornecimento de sombra, manejo adequado de pastagens, das fontes de água, do solo, microclimas equilibrados e infraestrutura de biosseguridade — será decisivo para proteger as populações animais, reduzir riscos sanitários e manter a competitividade do setor.
Superar os desafios sanitários, ambientais e climáticos que moldam a pecuária brasileira exige uma combinação de ações estruturantes que caminhem na mesma direção. O primeiro passo, portanto, é fortalecer a biosseguridade e a vigilância em saúde animal., uma vez que a capacidade de identificar rapidamente um foco, conter sua disseminação e evitar bloqueios comerciais depende da articulação robusta do setor produtivo com os serviços veterinários nos estados e de protocolos continuamente revisados. Esse esforço se torna ainda mais relevante em um contexto em que o padrão de saúde e doença nas aglomerações animais tende a ser fortemente impactado. por maior frequência de estiagens e inundações, bem como de ondas de calor e frio.
Nesse sentido, a adaptação produtiva precisa avançar. Sistemas como Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, a recuperação de pastagens e modelos mais eficientes no uso do solo contribuem para criar microclimas mais equilibrados, reduzir o estresse térmico, aumentar o bem-estar animal e elevar a produtividade. Essas práticas representam uma estratégia dupla: reduzem vulnerabilidades sanitárias e fortalecem a sustentabilidade ambiental, ampliando a resiliência dos sistemas de produção frente às mudanças climáticas, ao mesmo tempo patrocinando maior garantia de retorno e rendimentos aos produtores.
A transição, no entanto, não ocorrerá na velocidade necessária sem um ambiente financeiro capaz de sustentá-la. Programas públicos como o Plano ABC+ e o RenovAgro seguem fundamentais, mas enfrentam limitações naturais de orçamento e de ampla e maciça adesão. Por isso, ampliar mecanismos de blended finance — que combinam recursos públicos e privados — torna-se essencial para escalar investimentos em intensificação sustentável, infraestrutura de biossegurança e rastreabilidade. Iniciativas como o EcoInvest mostram como esse modelo pode acelerar a adoção de tecnologias e práticas mais modernas no campo.
Por fim, políticas públicas integradas, com base em parcerias público-privadas são indispensáveis. Não é mais possível tratar sanidade, estratégias de curto a longo prazo e sustentabilidade econômica e ambiental como agendas separadas. Mais recentemente, a Organização Mundial da Saúde Animal vem tomando medidas e buscando mecanismos junto a outros organismos internacionais para incluir a saúde animal na agenda climática de ação global, frente à necessidade premente de salvaguardar a sanidade dos rebanhos em todos os países, em um mundo que já passa por profundas e aceleradas transformações.
O avanço da rastreabilidade individual com o PNIB demonstra como medidas gerenciais e sanitárias podem apoiar simultaneamente objetivos ambientais, enquanto ações de fortalecimento da defesa agropecuária em conjunto com os setores produtivos, regularização fundiária, preservação e proteção da água e do solo, combate ao desmatamento ilegal, prevenção de eventos de contaminação ambiental por acidentes ou mau uso de agroquímicos, dentre outros pontos, precisam caminhar de forma coordenada. Uma governança articulada entre estados, governo federal e setor privado será determinante para garantir credibilidade, reduzir riscos e manter o acesso a mercados cada vez mais exigentes.
Sendo o Brasil um dos principais produtores de proteína animal e fornecedor de animais e produtos para cerca de 200 países, contribuindo para a segurança alimentar global, torna-se fundamental ampliar a adoção de protocolos de ação que garantam asustentabilidade sanitária, ambiental e econômica da pecuária brasileira.
Em síntese, integrar sanidade animal, sustentabilidade e investimento em práticas resilientes não é apenas uma resposta imediata aos desafios atuais: é a base
estratégica para assegurar que a pecuária brasileira continue competitiva, robusta e preparada para um futuro mais quente e incerto.
Referências e leituras indicadas:
CARDOSO, Victor Martins. Brasil conquista status de área livre de febre aftosa sem vacinação. Agro Global – Insper, 4 jun. 2025. Disponível em:
https://agro.insper.edu.br/midia/noticias/brasil-conquista-status-de-area-livre-de-febre-aftosa-sem-vacinacao. Acesso em: 19 dez. 2025.SEGUIR NORMAS ABNT
CRUZ, Gabriela M. da; CARDOSO, Victor M.; GILIO, Leandro. O caso “Boi China”: como questões comerciais podem se tornar instrumentos de incentivo à produção sustentável. São Paulo: Insper Agro Global, ago. 2025. (Working Paper n. 5/2025). Disponível em: https://agro.insper.edu.br/storage/papers/October2025/O_caso_boi_china.pdf . Acesso em: 19 dez. 2025.
CRUZ, Gabriela M. da. PNIB: rastreamento individual de bovinos e os desafios da implementação. São Paulo: Insper Agro Global, jan. 2025. (Policy Brief n. 2/2025). Disponível em: https://agro.insper.edu.br/storage/papers/January2025/Policy%20Brief%20-
%20Plano%20Nacional%20de%20Identificação%20Individual%20de%20Bovinos%20e%
20Búfalos%20(PNIB).pdf. Acesso em: 19 dez. 2025.
GLOSSÁRIO
É uma estratégia financeira que combina recursos públicos, privados e filantrópicos para financiar projetos de alto impacto social e ambiental. O objetivo é atrair investimentos privados ao reduzir riscos associados a projetos que, de outra forma, não receberiam financiamento suficiente. Por meio dessa abordagem, capital público e filantrópico atua como catalisador, oferecendo garantias, subsídios ou crédito a taxas mais atrativas, enquanto o capital privado amplia a escala e a sustentabilidade econômica dos projetos. Essa técnica é amplamente utilizada em setores como infraestrutura sustentável, energia renovável e agricultura regenerativa.
Microrganismos (vírus, bactérias, fungos ou parasitas) capazes de causar
doenças nos animais.
Eventos ou situações em que ocorre concentração de animais de diferentes origens — como feiras, leilões ou confinamentos — aumentando o risco de
transmissão de doenças.
Conjunto de medidas de prevenção e controle para impedir a entrada, permanência ou disseminação de doenças em propriedades ou sistemas produtivos.
Nome dado ao protocolo sanitário do acordo Brasil–China que exige critérios específicos para exportação, como idade máxima de abate e comprovação de origem, gerando impactos sobre manejo, produtividade e sustentabilidade.
Bloco de países que compõe a União Europeia, reconhecido por impor exigências sanitárias e ambientais mais rigorosas aos produtos agropecuários importados.
Situações de risco elevado decorrentes da detecção de doenças animais que podem comprometer rebanhos, saúde pública ou comércio internacional, exigindo
resposta rápida das autoridades.
Medida que converte diferentes tipos de carne para uma mesma unidade baseada no teor de proteína. Como cada carne possui porcentagens distintas de proteína, o equivalente proteico expressa produção e consumo em toneladas de proteína, permitindo comparações padronizadas entre países e produtos.
Benefícios ambientais indiretos decorrentes de mudanças produtivas — como menor emissão, melhor manejo de pastagens ou redução da idade de abate
— que não foram buscados como objetivo principal.
Documento oficial que registra a movimentação de animais entre propriedades, servindo como ferramenta de controle sanitário e identificação da origem
do rebanho.
Sistema que combina a produção agrícola, pecuária e florestal na mesma área, promovendo a sustentabilidade.
É a autoridade mundial em saúde animal, fundada em 1924 como o Office International des Epizooties (OIE). É uma organização intergovernamental que foca em disseminar informações sobre doenças animais, melhorar a sanidade animal mundial e construir um mundo mais são, saudável e sustentável.
Doenças que dependem de insetos ou outros organismos intermediários (mosquitos,carrapatos, etc.) para infectar animais.
O Plano ABC+ (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono) é uma evolução do original Plano ABC, uma política pública do Brasil que visa promover práticas agrícolas sustentáveis. Este plano busca reduzir a emissão de gases de efeito estufa através de tecnologias e práticas que aumentem a produtividade agrícola e a resiliência ambiental, como o manejo adequado do solo, recuperação de pastagens degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta, e sistemas agroflorestais.
Programa federal que estabelece regras para a identificação individual de animais e registro de seus deslocamentos,
facilitando rastreamento e vigilância sanitária.
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Sistema que identifica grupos de animais movimentados juntos, sem identificação individual, registrando origem e destino, mas com menor detalhamento.
Método que vincula cada animal a um identificador único,permitindo acompanhar sua vida produtiva, movimentações e contatos.